quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A consolidação da antropologia brasileira

Este ensaio tem como principal objetivo traçar uma panorâmica breve sobre a emergência e o atual estado dos esforços no sentido de implantar e consolidar a antropologia e a sociologia das emoções no Brasil. Estas disciplinas se constituíram como subárea de conhecimento das disciplinas antropologia e sociologia, como resultado de um processo iniciado nos Estados Unidos nos anos de 1970. No Brasil o seu surgimento e luta pelo reconhecimento e processo de consolidação aconteceu um pouco mais tarde, quase duas décadas depois, nos anos de 1990. A constituição dessas novas áreas se deu como um processo de busca de rejuvenescimento da teoria social, através de uma releitura da tradição sociológica e antropológica, desde os clássicos. 

Nos Estados Unidos, a revisão da teoria social que permitiu os passos iniciais da antropologia e da sociologia das emoções, aconteceu juntoa redescoberta das filiações interacionistas da Escola de Chicago, e de uma revisão crítica do estrutural-funcionalismo parsoniano, então dominante no pensamento social local, desde o final da década de 1940. Esta nova leitura teve influência da filosofia francesa de Derrida e Foucault, da filosofia social de Simmel, da teoria crítica alemã e da Sociologiade Norbert Elias e Richard Sennett, entre outros. A sociologia e a antropologia das emoções se espalharam pelo mundo, com construções teórico-metodológicas diversas e, mesmo, conflitantes, na procura de posicionar as emoções como categoria central para se pensar a interrelação entre indivíduo e sociedade: fundamento da constituição das ciências sociais.

No Brasil já existem pesquisas e ensaios que tentam compreender o processo de formação do campo que trás as emoções para o debate social e cultural. Nesta direção, se tem a tese ainda inédita de Marieze Rosa Torres (2009. Hóspedes incômodas: as emoções na sociologia norte-americana. (Tese).Salvador: PPGCS/UFBA), os livros e artigos de Mauro Guilherme Pinheiro Koury (2004. Introdução à sociologia da emoção. João Pessoa: Ed. Manufatura; 2005. A antropologia das emoções no Brasil. RBSE – Revista brasileira de sociologia da emoção, v. 4, n. 12, pp. 239-252; e 2009. Emoções, sociedade e cultura. Curitiba: Ed. CRV.) e o ensaio de Claudia Rezende & Maria Claudia Coelho (2010. Antropologia das emoções. Rio de Janeiro: Ed. FGV.), que buscam situar o debate e os caminhos da antropologia e da sociologia das emoções no interior da tradição sociológica e antropológica brasileira e mundial.

A sociologia e a antropologia das emoções no Brasil tem uma vida bem recente, e se expandem no país a partir de meados de 1990. A discussão e as análises sobre emoções e as suas interfaces com a cultura e a sociedade, porém, tem uma vida mais longa e podem ser vinculadas às obras de clássicos das ciências sociais no Brasil como Gilberto Freyre, Paulo Prado, Sérgio Buarque de Holanda, Oracy Nogueira, entre outros. Estes autores já colocam as emoções e as relações intersubjetivas na construção social como uma das problemáticas definidoras das bases compreensivas da constituição da realidade brasileira, embora sem as utilizar como objeto de pesquisa próprio. Elas obraram, no máximo, como variável interveniente da análise social. De uma forma equivalente aos clássicos das ciências sociais, a cultura emocional foi trabalhada por esses precursores, no Brasil, de forma abstrata e subsumida nas análises estruturais sobre a sociedade brasileira. Quadro analítico este que predominou até a segunda metade da década de 1980. 

As ciências sociais, no seu processo de formação como ciência, procuraram se afastar dos fantasmasda subjetividade, delimitando a objetividade das relações sociais como fundamento de análise. No final dos anos de 1970, porém, os estudos de Roberto DaMatta convocam os pesquisadores e os estudiosos a prestarem atenção às emoções, embora, também, sem estabelecer um parâmetro próprio para o uso das emoções como categoria analítica. 

Gilberto Velho, nesta direção e período, pode ser considerado como o autor mais importante na configuração de uma antropologia e de uma sociologia das emoções no Brasil. Em seus estudos enfatizou a cultura emocional no Brasil urbano contemporâneo. Como DaMatta, partiu de uma dualidade estruturante da realidade brasileira entre sistemas hierárquicos e sistemas individualistas, e baseou o seu aporte para entendimento da lógica da hierarquia no Brasil na análise dumoniana. Diferente de DaMatta, porém, que busca uma espécie de padrão único para a interpretação do ser social e cultural brasileiro, Velho partiu do pressuposto de uma diversidade de padrões comportamentais e de sistemas individualistas e holistas na sociedade nacional. Enfatizou, por conseguinte, a compreensão do urbano através do processo de individualização e da lógica individualista, e discutiu a emergência do indivíduo psicológico no Brasil urbano, e o individualismo crescente nas camadas médias urbanas das grandes metrópoles.

Velho deu relevo especial à análise dos modos de vida e dos comportamentos no urbano: os rearranjos familiares e de amizade, a lógica individualista dos projetos de vida, em contraposição aos projetos societários e coletivos são enfatizados em suas análises. Sua contribuição possui grande influência simmeliana, e mistura a análise fenomenológica com a análise interacionista dos dois momentos importantes da escola de Chicago. Nesta última, principalmente, através de autores como Robert Park, George Mead, Herbert Blumer, Erving Goffman e Howard Becker, sem desprezar a leitura atenta e atenciosa de autores da escola francesa, como, por exemplo, Marcel Mauss, Claude Lévi-Strauss e Louis Dumont.

Elaborou, assim, uma análise profunda e profícua sobre as questões ligadas à relação entre as formas de subjetividade e da objetividade na análise da cultura e do social, bem como, sobre a problemática das emoções e da cultura emocional urbana na contemporaneidade brasileira. Problematizou, assim, a tensa relação entre os indivíduos e a cultura e sociedade, fazendo desta tensão um tema recorrente em sua obra. 

Assim sendo, Velho pode ser considerado o principal precursor deste campo disciplinar, no país, que lida com as relações entre as emoções, cultura e sociedade. Porém, só na década de 1990 pode-se afirmar o surgimento de uma sociologia e de uma antropologia das emoções como interesse de pesquisa no Brasil, e como embate pela consolidação destes campos disciplinares na academia. Este empenho tem duas interconexões: 

1- A busca de abertura de canais de comunicação e debate em revistas, congressos e encontros; 

2 - A criação de grupos de pesquisa com interesses principais de investigação centrados nas emoções

As duas interconexões convergem para a abertura de um espaço de acolhimento nas ciências sociais hegemônicas no país, como um espaço próprio e consolidado do pensamento social local. Esse processo tem gerado tensões, conflitos, mas, também, interesses na área e vem conseguindo afirmar as emoções como campo legítimo na estruturação das ciências sociais no país. Tal esforço de afirmação tem por trás de si três grupos de pesquisa, situados em três instituições acadêmicas brasileiras. Estes têm se movimentado no sentido de fortalecer, divulgar e concretizar a sociologia e a antropologia das emoções no cenário acadêmico nacional. Os três grupos são: 

O GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções, criado em 1994, na Universidade Federal da Paraíba [UFPB]; 

O GPTI - Grupo de Pesquisa Transformações da Intimidade, que funciona na Universidade Estadual do Rio de Janeiro [UERJ], desde 1998

O GPCSSU - Grupo de Pesquisa Cultura, Sociabilidades e Sensibilidades Urbanas, instituído desde 2010 na Universidade Federal da Bahia.

O GREM criado em 1994, pelo autor deste artigo, na Universidade Federal da Paraíba, é o grupo mais antigo e oficializa um núcleo onde as emoções são consideradas como categoria chave para a análise sociológica e antropológica. Tem por objetivo a compreensão e análise da emergência da individualidade e do individualismo no Brasil urbano contemporâneo, enfatizando a questão da formação das emoções, enquanto cultura emocional. O GREM vem desenvolvendo pesquisas sobre processos de formação e experiência em emoções específicas nos planos societal como: estilos de vida e individualidade; processo de luto e da morte e do morrer; medos corriqueiros; formas de sociabilidades e das etiquetas sociais que envolvem as relações de amizade; processos de ressentimento e humilhação; e formas de afirmações de laços de confiança e desconfiança entre as camadas médias e populares urbanas no país.

O GPTI, sob a liderança de Maria Claudia Coelho e Claudia Barcellos Rezende, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é outro grupo de pesquisa que tem tido o compromisso com o processo de desenvolvimento do campo disciplinar da antropologia das emoções no Brasil, desde 1998. Este grupo tem por objetivo o exame das formações da subjetividade constitutivas do mundo contemporâneo, e o refletir sobre as formas de articulação entre os níveis micro e macro da vida social a partir da análise dos limites e das possibilidades de construção das esferas tradicionalmente entendidas como restritas à experiência individual, tais como a subjetividade, o corpo e as emoções.

O terceiro grupo de pesquisa importante na definição das fronteiras e em busca da consolidação da antropologia e sociologia das emoções no Brasil é o GPCSSU, criado em 2010, na Universidade Federal da Bahia. Este grupo, liderado por Marieze Rosa Torres e Patrícia Carla Smith Galvão, desenvolve um esforço recente na direção de um fortalecimento do campo disciplinar ligado à sociologia das emoções. 

Esses três grupos de pesquisa e seus pesquisadores e estudantes, situados nos estados da Paraíba, Rio de Janeiro e Bahia são, hoje, os grupos que vem assumindo mais diretamente o processo de consolidação e o desenvolvimento da antropologia e da sociologia das emoções no Brasil. É bom frisar, por fim, fruto desse esforço de consolidação da área de emoções no país, a existência de um número crescente de monografias, dissertações e teses isoladas defendidas desde o final da década de 1990 e com mais ênfase a partir do ano de 2005, em vários programas de pós-graduação do país, que já apontam a antropologia ou a sociologia das emoções como eixo temático central.

O trabalho coletivo em prol do desenvolvimento das áreas disciplinares da antropologia e da sociologia das emoções na academia brasileira nesses últimos vinte anos tem tido resultado positivo, por fim, quer no interesse crescente de pesquisadores e estudantes, ou pela ampliação dos fóruns de debate e grupos e centros de pesquisa, quer pela delimitação de linhas de pesquisa no interior de departamentos e cursos, ou pela oferta regular de disciplinas em sociologia e antropologia das emoções nos cursos de graduação e pós-graduação. Nota-se ainda um grande esforço na composição de dossiês em revistas acadêmicas direcionados a balanços e estados de arte, além da publicação de coletâneas com interesse específico na relação emoções, cultura e sociedade.

É importante também ressaltar o trabalho ininterrupto de pesquisadores ligados às áreas aqui trabalhadas, de produção e manutenção nos congressos e encontros nacionais e internacionais de grupos de trabalho, oficinas, mesas redondas e fóruns nas áreas de antropologia e de sociologia das emoções. As perguntas que se encontram por trás desse esforço são: o que se pode fazer para canalizar e organizar a demanda crescente de interesse sobre a questão das emoções, vistas nos encontros e congressos que contém grupos de trabalho sobre a temática, com fins de discussão, organização e consolidação destas áreas disciplinares?  Como focar o debate na problemática das emoções, mesmo quando nas comunicações apresentadas elas ainda aparecem como que subsumidas em discussões correlatas de gênero, de corpo, de moralidade, de arte, de violência e outros, e apenas com uma relação remota com a questão das emoções, embora lá desperta como interesse conexo? 

Interesse conexo se si atenta, são fundamentais para a discussão da relação subjetividade e emoções na análise da cultura e sociedade, e são o fundamento da constituição disciplinar de uma antropologia e de uma sociologia das emoções. É através deles que os profissionais mais ativos na área têm que atentar no encaminhamento do debate para a grande questão atual desse campo disciplinar, que é a sensibilização para o debate sobre a centralidade da categoria emoções na análise social e cultural. Trazer as emoções como cerne no debate das ciências sociais, hoje, deste modo, é o grande desafio dos que fazem a antropologia e a sociologia das emoções no Brasil.

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