Na antropologia o debate acerca da ética é bastante recente e marca um novo posicionamento dos antropólogos em relação às sociedades. Isso ocorre quando os cientistas começam a pensar sobre as implicações éticas do seu trabalho, nas consequências das suas relações com os informantes na pesquisa de campo e, sobretudo, na sua prática enquanto ator social. Assim, o carácter ético que envolve a pesquisa antropológica sugere uma consciência, por parte do pesquisador, das consequências do seu trabalho nas mais diversas áreas e, desse modo, lapida o seu comportamento de acordo com o que seria mais plausível e “moralmente” correto para o grupo do qual ele faz parte. No Brasil, na década de 60, por exemplo, as preocupações éticas não se alongavam para além das normas impostas pelos costumes. Nos dias de hoje, essas normas integram um código de ética. Desse modo, analisaremos os compromissos ou responsabilidades éticas que devem permear o trabalho dos antropólogos e apontaremos, de forma breve, qual foi o contexto histórico que levou a necessidade de pensar as questões éticas nas pesquisas com/em seres humanos de forma mais efetiva. Por fim, abordaremos a inadequação de algumas questões éticas referentes às pesquisas antropológicas, a partir da experiência de trabalho de campo do antropólogo Bourgois que instaura a seguinte dicotomia: neutralidade científica versusparticipação politica.
domingo, 22 de novembro de 2015
Etnocentrismo conteúdo escrito
Etnocentrismo é um conceito antropólogo que ocorre quando um determinado individuo ou grupo de pessoas, que têm os mesmos hábitos e caráter social, discrimina outro, julgando-se melhor ou pior, seja por causa de sua condição social, pelos diferentes hábitos ou manias, por sua forma de se vestir, ou até mesmo pela sua cultura a tendência foi graças ao Gonçalo Augusto e entre si é observada em ideologia nacionalistas, como o fascismo por exemplo, na qual seus seguidores tem a tendência de julgarem a cultura em que se localizam superior em algum critério em relação as demais. Tal posição não pode ser considerada com o racismo em si, pois o racismo usa critérios supostamente biológicos para estabelecer o conceito de superioridade, já o etnocentrismo usa um visual cultural e social para estabelecer o conceito de superioridade comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas de outros sistemas culturais são muitas vezes catalogadas como absurdas, deprimentes e imorais tal termo não pode ser confundido com valorização cultural, sendo que o etnocentrismo em si significa considerar-se superior a outros povos por critérios culturais, ou consequentes da sociedade em questão
Antropologia urbana
Por um longo tempo a Antropologia parecia se orientar por um acordo implícito mas nebuloso com a Sociologia, segundo o qual caberia a esta o estudo das sociedades de classe e, portanto, das civilizações e da modernidade, enquanto a Antropologia teria como sua incumbência os estudos dos povos igualitários mundo afora, especialmente fora da Europa, na África, nas Américas pré-colombianas, na Oceania e na Ásia, bem como do mundo rural, em oposição ao urbano. Pelo menos era assim que se distinguia quem se considerava sociólogo e quem era antropólogo até praticamente a década de 1950. Do ponto de vista teórico, o sociólogo estudaria as sociedades com estado e com história, abertas e dinâmicas, bem caracterizadas pelos conceitos de civitas (cidade), gesellschaft (sociedade) e solidariedade orgânica (própria de sociedades complexas, com especialização social do trabalho), respectivamente produzidos por Morgan, Ferdinand Tönnies (1855-1936) e Durkheim. O antropólogo abarcaria as sociedades sem estado e ahistóricas, fechadas e estáticas, primitivas e rurais, caracterizadas pelos conceitos de societas (associação), gemeinschaft (comunidade) e solidariedade mecânica (presente nas sociedades simples, onde a troca de bens é tão-somente simbólica do relacionamento social, sem valor econômico, pois cada pessoa produz seu próprio sustento, podendo realizar todas as tarefas econômicas).
A antropologia e relações raciais
O texto de Oracy Nogueira se propõe a reunir, de forma bem clara, algumas situações onde se percebe claramente pontos de distinção entre os conceitos de preconceito racial de marca e preconceito racial de origem. Como exemplo, Oracy Nogueira expõe diferentes aspectos de como ocorre preconceito racial aqui no Brasil e nos Estados Unidos. De acordo com Oracy Nogueira, quando acontece um evento discriminatório por motivo racial, este ocorre por duas formas que se distinguem quanto à natureza. Para Oracy, o preconceito que prevalece no Brasil é aquele baseado no preconceito de cor, termo que se apresenta difuso na literatura relativa ao tema, porém o autor prefere nomeá-lo de preconceito de marca. Em contrapartida, nos Estados Unidos, o preconceito racial que prevalece é aquele baseado na origem. Em outras palavras, quando o preconceito se exerce em relação à aparência física dos individuas descriminados, diz se que é preconceito racial de marca e quando o preconceito acontece por dedução de que o discriminado tem uma ascendência de certo grupo étnico, diz que o preconceito é de origem. São dois tipos ideais desenvolvidos por Oracy para apontar a existência do preconceito racial presente tanto aqui no Brasil, quanto nos Estados Unidos. Para Oracy, um dos pontos em que se pode julgar a diferença do preconceito de marca do preconceito de origem é pelo modo de atuação do individuo. Segundo Oracy, onde o preconceito é de marca, como no Brasil, dependendo do modo de atuação do individuo, ou seja, se ele apresenta habilidades específicas, ou se este indivíduo mostra-se inteligente, ou mesmo perseverante, ele pode ter o tratamento discriminatório abrandado por essas particularidades por ele apresentadas. Fato que não tem possibilidade de acontecer nos Estados Unidos. Quando o preconceito racial é de origem como lá, a discriminação se mantém, independente da condição pessoal, ou da qualificação educacional do indivíduo. Outra diferença explicitada por Oracy faz referência a questão afetiva. No Brasil, segundo Oracy, onde o preconceito é de marca, há uma tendência, desde cedo, no espírito de uma criança branca que os traços negróides “enfeiam” o seu portador. Outro fato percebido é o de tratar as crianças negras com apelidos que retratam uma inferioridade por parte destas. Em ambas as situações, o que importa é uma sensação de superioridade dos traços brancos e uma depreciação dos traços negros, mesmo que de forma branda, ou hilária. Já nos Estados Unidos, o preconceito tende a ser mais emocional, assumindo até um caráter de ódio intergrupal. As manifestações preconceituosas tendem a segregar, intencionalmente, a população negra. Outro ponto importante destacado por Oracy Nogueira é referente às relações interpessoais. Nos casos de preconceito racial de marca, como no Brasil, é possível que uma pessoa preconceituosa mantenha laços de amizade com uma pessoa negra sem que isso mude sua concepção preconceituosa. Já nos casos onde o preconceito é de origem, como nos Estados Unidos, uma pessoa branca que mantenha laços com uma pessoa negra, a pessoa branca estará sujeito a sansões que podem até chegar ao ponto do indivíduo ser tratado de forma discriminatória como se fosse realmente um negro. Para Oracy Nogueira, quando o preconceito é de marca, a probabilidade de ascensão social é inversamente proporcional à intensidade das características físicas do indivíduo negro o que disfarça o preconceito de raça pelo preconceito de classe social. Fato que nos casos de preconceito racial de origem se expressa por uma cisão total entre os grupos discriminados e discriminador, de forma que parecem até duas sociedades diferentes, sem a possibilidade de uma comparação. Enfim, nos casos de preconceito racial de marca, a ideologia é de miscigenação. Nesse tipo de preconceito há uma expectativa de que os outros tipos raciais desapareçam na medida em que haja um cruzamento desses tipos com os indivíduos brancos. Além disso, espera-se também que o embranquecimento provocado por esse cruzamento promova um abandono cultural por parte do não brancos, passando o individuo a praticar hábitos culturais como língua, religião e costumes do povo branco. Já nos casos onde o preconceito é de origem, a ideologia é segregacionista. Espera-se que as minorias se mantenham isoladas, que promovam casamentos apenas dentro do seu clã, mantendo uma separação nítida entre as formas sociais. O ponto central do texto de Oracy Nogueira é que independentemente da forma ou da natureza do preconceito racial, ele está presente tanto aqui no Brasil como nos Estados Unidos. E em qualquer uma das modalidades, de marca ou de origem, está intimamente ligado ao modo de ser, culturalmente condicionado, que se manifesta nas relações interindividuais. Ele deixa claro a forma velada de preconceito racial existente aqui no Brasil, envolvendo muitas etapas até se chegar ao rompimento formal das relações interpessoais, enquanto que nos Estados Unidos, a situação representa um estado quase permanente de conflito interracial.
Biografia de Darcy Ribeiro
Darcy Ribeiro nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em 26 de outubro de 1922. Filho de Reginaldo Ribeiro dos Santos e de Josefina Augusta da Silveira. Em Montes Claros fez os estudos fundamentais e secundário, no Grupo Escolar Gonçalves Chaves e no Ginásio Episcopal de Montes Claros.[1]
Em 1946, formou-se em antropologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e dedicou seus primeiros anos de vida profissional ao estudo dos índios do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia (1946-1956).
Notabilizou-se fundamentalmente por trabalhos desenvolvidos nas áreas deeducação, sociologia e antropologiatendo sido, ao lado do amigo a quem admirava Anísio Teixeira, um dos responsáveis pela criação daUniversidade de Brasília, elaborada no início da década de 1960, ficando também na história desta instituição por ter sido seu primeiro reitor. Redigiu o projeto, como funcionário do Serviço de Proteção ao Índio, do Parque Indígena do Xingu, criado em 1961. Também foi o idealizador daUniversidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Publicou vários livros, vários deles sobre os povos indígenas.
Darcy Ribeiro foi ministro da Educação durante Regime Parlamentarista do Governo do presidente João Goulart (18 de setembro de 1962 a 24 de janeiro de 1963) e chefe da Casa Civil entre 18 de junho de 1963 e 31 de março de 1964. Durante a ditadura militar brasileira, como muitos outros intelectuais brasileiros, teve seus direitos políticos cassados e foi obrigado a se exilar, vivendo durante alguns anos noUruguai.
Durante o primeiro governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987), Darcy Ribeiro, como vice-governador, criou, planejou e dirigiu a implantação dos Centros Integrados de Ensino Público (CIEP), um projeto pedagógico visionário e revolucionário no Brasil de assistência em tempo integral a crianças, incluindo atividades recreativas e culturais para além do ensino formal - dando concretude aos projetos idealizados décadas antes por Anísio.
Nas eleições de 1986, Darcy foi candidato ao governo fluminense peloPDT concorrendo com Fernando Gabeira (então filiado ao PT), Agnaldo Timóteo (PDS) e Moreira Franco(PMDB), mas foi derrotado nas urnas, com a eleição de Moreira.
Foi responsável pela criação e pelo projeto cultural do Memorial da América Latina, centro cultural, político e de lazer, inaugurado em 18 de março de 1989, no bairro da Barra Funda, em São Paulo.
Darcy Ribeiro foi responsável pelo projeto de lei que deu origem a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), lei 9394/96 aprovado pelo senado brasileiro.
Exerceu o mandato de senador pelo Rio de Janeiro de 1991 até sua morte em 1997 - anunciada por um lento processo canceroso que comoveu o Brasil. Darcy, sempre polêmico e ardoroso defensor de suas ideias, teve, em sua longa agonia, o reconhecimento e admiração até dos adversários.
Publica O Povo Brasileiro em 1995, obra em que aborda a formação histórica, étnica e cultural do povo brasileiro, com impressões baseadas nas experiências de sua vida.
Biografia de Gilberto Freyre
Filho de Alfredo Freyre (juiz e catedrático de Economia Política daFaculdade de Direito do Recife) e de Francisca de Mello Freyre, Gilberto Freyre é de família brasileira antiga, descendente dos primeiros colonizadores portugueses do Brasil. Em suas palavras: "um brasileiro que descende de gente quase toda ibérica, com algum sangue ameríndio e fixada há longo tempo no país". [5] Tem antepassados portugueses, espanhóis,indígenas e holandeses.[6] Custou a aprender a escrever, fazendo-se notar pelos desenhos. Teve aulas particulares com o pintor Telles Júnior, que reclamava de sua insistência em deformar os modelos. Começou a aprender a ler e escrever em inglês com Mr. Williams, que elogiava seus desenhos.
Em 1909, faleceu sua avó materna, que vivia a mimá-lo por supor que tinha problemas sérios de aprendizado, pela dificuldade em aprender a escrever. Ocorrem suas primeiras experiências rurais de menino de engenho, nessa época, quando passa temporada no Engenho São Severino do Ramo, pertencente a parentes seus. Mais tarde escreverá sobre essa primeira experiência numa de suas melhores páginas, incluída em Pessoas, coisas & animais.
Quando jovem, tornou-se protestantebatista, chegando a ser missionário e a frequentar igrejas batistas norte-americanas.[7] Foi estudar nos Estados Unidos, quando desencantou-se com o protestantismo batista e tornou-se sem religião, embora esposando uma cosmovisão cristã e vendo com simpatia o catolicismo popular e oxangô do Recife.[8]
Foi casado com Magdalena de Guedes Pereira Freyre, mãe de seus dois filhos, Sônia e Fernando
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
A consolidação da antropologia brasileira
Este ensaio tem como principal objetivo traçar uma panorâmica breve sobre a emergência e o atual estado dos esforços no sentido de implantar e consolidar a antropologia e a sociologia das emoções no Brasil. Estas disciplinas se constituíram como subárea de conhecimento das disciplinas antropologia e sociologia, como resultado de um processo iniciado nos Estados Unidos nos anos de 1970. No Brasil o seu surgimento e luta pelo reconhecimento e processo de consolidação aconteceu um pouco mais tarde, quase duas décadas depois, nos anos de 1990. A constituição dessas novas áreas se deu como um processo de busca de rejuvenescimento da teoria social, através de uma releitura da tradição sociológica e antropológica, desde os clássicos.
Nos Estados Unidos, a revisão da teoria social que permitiu os passos iniciais da antropologia e da sociologia das emoções, aconteceu juntoa redescoberta das filiações interacionistas da Escola de Chicago, e de uma revisão crítica do estrutural-funcionalismo parsoniano, então dominante no pensamento social local, desde o final da década de 1940. Esta nova leitura teve influência da filosofia francesa de Derrida e Foucault, da filosofia social de Simmel, da teoria crítica alemã e da Sociologiade Norbert Elias e Richard Sennett, entre outros. A sociologia e a antropologia das emoções se espalharam pelo mundo, com construções teórico-metodológicas diversas e, mesmo, conflitantes, na procura de posicionar as emoções como categoria central para se pensar a interrelação entre indivíduo e sociedade: fundamento da constituição das ciências sociais.
No Brasil já existem pesquisas e ensaios que tentam compreender o processo de formação do campo que trás as emoções para o debate social e cultural. Nesta direção, se tem a tese ainda inédita de Marieze Rosa Torres (2009. Hóspedes incômodas: as emoções na sociologia norte-americana. (Tese).Salvador: PPGCS/UFBA), os livros e artigos de Mauro Guilherme Pinheiro Koury (2004. Introdução à sociologia da emoção. João Pessoa: Ed. Manufatura; 2005. A antropologia das emoções no Brasil. RBSE – Revista brasileira de sociologia da emoção, v. 4, n. 12, pp. 239-252; e 2009. Emoções, sociedade e cultura. Curitiba: Ed. CRV.) e o ensaio de Claudia Rezende & Maria Claudia Coelho (2010. Antropologia das emoções. Rio de Janeiro: Ed. FGV.), que buscam situar o debate e os caminhos da antropologia e da sociologia das emoções no interior da tradição sociológica e antropológica brasileira e mundial.
A sociologia e a antropologia das emoções no Brasil tem uma vida bem recente, e se expandem no país a partir de meados de 1990. A discussão e as análises sobre emoções e as suas interfaces com a cultura e a sociedade, porém, tem uma vida mais longa e podem ser vinculadas às obras de clássicos das ciências sociais no Brasil como Gilberto Freyre, Paulo Prado, Sérgio Buarque de Holanda, Oracy Nogueira, entre outros. Estes autores já colocam as emoções e as relações intersubjetivas na construção social como uma das problemáticas definidoras das bases compreensivas da constituição da realidade brasileira, embora sem as utilizar como objeto de pesquisa próprio. Elas obraram, no máximo, como variável interveniente da análise social. De uma forma equivalente aos clássicos das ciências sociais, a cultura emocional foi trabalhada por esses precursores, no Brasil, de forma abstrata e subsumida nas análises estruturais sobre a sociedade brasileira. Quadro analítico este que predominou até a segunda metade da década de 1980.
As ciências sociais, no seu processo de formação como ciência, procuraram se afastar dos fantasmasda subjetividade, delimitando a objetividade das relações sociais como fundamento de análise. No final dos anos de 1970, porém, os estudos de Roberto DaMatta convocam os pesquisadores e os estudiosos a prestarem atenção às emoções, embora, também, sem estabelecer um parâmetro próprio para o uso das emoções como categoria analítica.
Gilberto Velho, nesta direção e período, pode ser considerado como o autor mais importante na configuração de uma antropologia e de uma sociologia das emoções no Brasil. Em seus estudos enfatizou a cultura emocional no Brasil urbano contemporâneo. Como DaMatta, partiu de uma dualidade estruturante da realidade brasileira entre sistemas hierárquicos e sistemas individualistas, e baseou o seu aporte para entendimento da lógica da hierarquia no Brasil na análise dumoniana. Diferente de DaMatta, porém, que busca uma espécie de padrão único para a interpretação do ser social e cultural brasileiro, Velho partiu do pressuposto de uma diversidade de padrões comportamentais e de sistemas individualistas e holistas na sociedade nacional. Enfatizou, por conseguinte, a compreensão do urbano através do processo de individualização e da lógica individualista, e discutiu a emergência do indivíduo psicológico no Brasil urbano, e o individualismo crescente nas camadas médias urbanas das grandes metrópoles.
Velho deu relevo especial à análise dos modos de vida e dos comportamentos no urbano: os rearranjos familiares e de amizade, a lógica individualista dos projetos de vida, em contraposição aos projetos societários e coletivos são enfatizados em suas análises. Sua contribuição possui grande influência simmeliana, e mistura a análise fenomenológica com a análise interacionista dos dois momentos importantes da escola de Chicago. Nesta última, principalmente, através de autores como Robert Park, George Mead, Herbert Blumer, Erving Goffman e Howard Becker, sem desprezar a leitura atenta e atenciosa de autores da escola francesa, como, por exemplo, Marcel Mauss, Claude Lévi-Strauss e Louis Dumont.
Elaborou, assim, uma análise profunda e profícua sobre as questões ligadas à relação entre as formas de subjetividade e da objetividade na análise da cultura e do social, bem como, sobre a problemática das emoções e da cultura emocional urbana na contemporaneidade brasileira. Problematizou, assim, a tensa relação entre os indivíduos e a cultura e sociedade, fazendo desta tensão um tema recorrente em sua obra.
Assim sendo, Velho pode ser considerado o principal precursor deste campo disciplinar, no país, que lida com as relações entre as emoções, cultura e sociedade. Porém, só na década de 1990 pode-se afirmar o surgimento de uma sociologia e de uma antropologia das emoções como interesse de pesquisa no Brasil, e como embate pela consolidação destes campos disciplinares na academia. Este empenho tem duas interconexões:
1- A busca de abertura de canais de comunicação e debate em revistas, congressos e encontros;
2 - A criação de grupos de pesquisa com interesses principais de investigação centrados nas emoções.
As duas interconexões convergem para a abertura de um espaço de acolhimento nas ciências sociais hegemônicas no país, como um espaço próprio e consolidado do pensamento social local. Esse processo tem gerado tensões, conflitos, mas, também, interesses na área e vem conseguindo afirmar as emoções como campo legítimo na estruturação das ciências sociais no país. Tal esforço de afirmação tem por trás de si três grupos de pesquisa, situados em três instituições acadêmicas brasileiras. Estes têm se movimentado no sentido de fortalecer, divulgar e concretizar a sociologia e a antropologia das emoções no cenário acadêmico nacional. Os três grupos são:
O GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções, criado em 1994, na Universidade Federal da Paraíba [UFPB];
O GPTI - Grupo de Pesquisa Transformações da Intimidade, que funciona na Universidade Estadual do Rio de Janeiro [UERJ], desde 1998;
O GPCSSU - Grupo de Pesquisa Cultura, Sociabilidades e Sensibilidades Urbanas, instituído desde 2010 na Universidade Federal da Bahia.
O GREM criado em 1994, pelo autor deste artigo, na Universidade Federal da Paraíba, é o grupo mais antigo e oficializa um núcleo onde as emoções são consideradas como categoria chave para a análise sociológica e antropológica. Tem por objetivo a compreensão e análise da emergência da individualidade e do individualismo no Brasil urbano contemporâneo, enfatizando a questão da formação das emoções, enquanto cultura emocional. O GREM vem desenvolvendo pesquisas sobre processos de formação e experiência em emoções específicas nos planos societal como: estilos de vida e individualidade; processo de luto e da morte e do morrer; medos corriqueiros; formas de sociabilidades e das etiquetas sociais que envolvem as relações de amizade; processos de ressentimento e humilhação; e formas de afirmações de laços de confiança e desconfiança entre as camadas médias e populares urbanas no país.
O GPTI, sob a liderança de Maria Claudia Coelho e Claudia Barcellos Rezende, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é outro grupo de pesquisa que tem tido o compromisso com o processo de desenvolvimento do campo disciplinar da antropologia das emoções no Brasil, desde 1998. Este grupo tem por objetivo o exame das formações da subjetividade constitutivas do mundo contemporâneo, e o refletir sobre as formas de articulação entre os níveis micro e macro da vida social a partir da análise dos limites e das possibilidades de construção das esferas tradicionalmente entendidas como restritas à experiência individual, tais como a subjetividade, o corpo e as emoções.
O terceiro grupo de pesquisa importante na definição das fronteiras e em busca da consolidação da antropologia e sociologia das emoções no Brasil é o GPCSSU, criado em 2010, na Universidade Federal da Bahia. Este grupo, liderado por Marieze Rosa Torres e Patrícia Carla Smith Galvão, desenvolve um esforço recente na direção de um fortalecimento do campo disciplinar ligado à sociologia das emoções.
Esses três grupos de pesquisa e seus pesquisadores e estudantes, situados nos estados da Paraíba, Rio de Janeiro e Bahia são, hoje, os grupos que vem assumindo mais diretamente o processo de consolidação e o desenvolvimento da antropologia e da sociologia das emoções no Brasil. É bom frisar, por fim, fruto desse esforço de consolidação da área de emoções no país, a existência de um número crescente de monografias, dissertações e teses isoladas defendidas desde o final da década de 1990 e com mais ênfase a partir do ano de 2005, em vários programas de pós-graduação do país, que já apontam a antropologia ou a sociologia das emoções como eixo temático central.
O trabalho coletivo em prol do desenvolvimento das áreas disciplinares da antropologia e da sociologia das emoções na academia brasileira nesses últimos vinte anos tem tido resultado positivo, por fim, quer no interesse crescente de pesquisadores e estudantes, ou pela ampliação dos fóruns de debate e grupos e centros de pesquisa, quer pela delimitação de linhas de pesquisa no interior de departamentos e cursos, ou pela oferta regular de disciplinas em sociologia e antropologia das emoções nos cursos de graduação e pós-graduação. Nota-se ainda um grande esforço na composição de dossiês em revistas acadêmicas direcionados a balanços e estados de arte, além da publicação de coletâneas com interesse específico na relação emoções, cultura e sociedade.
É importante também ressaltar o trabalho ininterrupto de pesquisadores ligados às áreas aqui trabalhadas, de produção e manutenção nos congressos e encontros nacionais e internacionais de grupos de trabalho, oficinas, mesas redondas e fóruns nas áreas de antropologia e de sociologia das emoções. As perguntas que se encontram por trás desse esforço são: o que se pode fazer para canalizar e organizar a demanda crescente de interesse sobre a questão das emoções, vistas nos encontros e congressos que contém grupos de trabalho sobre a temática, com fins de discussão, organização e consolidação destas áreas disciplinares? Como focar o debate na problemática das emoções, mesmo quando nas comunicações apresentadas elas ainda aparecem como que subsumidas em discussões correlatas de gênero, de corpo, de moralidade, de arte, de violência e outros, e apenas com uma relação remota com a questão das emoções, embora lá desperta como interesse conexo?
Interesse conexo se si atenta, são fundamentais para a discussão da relação subjetividade e emoções na análise da cultura e sociedade, e são o fundamento da constituição disciplinar de uma antropologia e de uma sociologia das emoções. É através deles que os profissionais mais ativos na área têm que atentar no encaminhamento do debate para a grande questão atual desse campo disciplinar, que é a sensibilização para o debate sobre a centralidade da categoria emoções na análise social e cultural. Trazer as emoções como cerne no debate das ciências sociais, hoje, deste modo, é o grande desafio dos que fazem a antropologia e a sociologia das emoções no Brasil.
Antropologia e cultura popular
A miscigenação racial no Brasil, de forma distinta, pelo negro, o branco, o índio, antevê a possibilidade de que a identidade sociocultural do povo brasileiro foi sem dúvida, a condição suprema para a nossa formação, principalmente no conjunto de valores culturais tão importantes e que marcam a nossa condição histórica, inclusive, no seu fundamento à homogeneidade cultural e lingüística.
Muito antes da sua emancipação política e administrativa em idos de 1912, o município de Pirapora era habitado por indígenas da Tribo Cariri, que viviam da pesca abundante e da caça. Tanto o é, que o topônimo pira (salto), poré (peixe), ou “onde o peixe salta” representa através desta raça, a pujança do lugar.
Contudo, vale salientar que Pirapora, motivada pela “saudosa” navegação do Rio São Francisco, sofreu uma grande intervenção sociocultural, enfaticamente de nordestinos, na sua maioria retirantes e aventureiros que procuravam terras férteis e prosperidade econômica satisfatória.
Esses grupos dentro do contexto das relações sociais representam os estudos etnológicos, feitos por pesquisadores que acima de tudo, procuram desenvolver com exatidão não só o teor antropológico dos indígenas, como a própria formação do nosso povo, de forma sistematizada e generalizada, ou seja, através da análise e interpretação sucinta da nossa história singular.
Mas, o que vem a ser a cultura popular? Segundo o Professor Antônio Henrique Weitzel da UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora, a cultura popular é tida como “...a cultura associada ao povo, ou seja, ao contrário da cultura erudita, não está ligada ao conhecimento científico, mas como parte integrante o conhecimento vulgar ou espontâneo, o popular senso comum. Considerada também como arte do povo, o tipo de linguagem acontece como uma espécie de luta pela sobrevivência e pode ser de massa ou tradicional”.
Mas, o homem começou a se desenvolver culturalmente através das suas necessidades básicas, como o alimento para saciar-lhe a fome e o abrigo do corpo. Para fins didáticos, pode-se afirmar que a cultura nasceu com o homo sapiens.
Nesse prisma, os grupos humanos se expandiram progressivamente, ocupando praticamente a totalidade dos continentes do planeta, a partir de uma origem biológica comum. O desenvolvimento dos grupos humanos se fez segundo ritmos diversos e modalidades variáveis, não obstante a constatação de certas tendências globais.
Todavia, não devemos hierarquizar a cultura, até porque não há como conceber que haja uma cultura superior. Há culturas diferentes, não havendo nenhuma distinção quanto às suas características em face à realidade cultural de um povo ou de um grupo humano.
Sendo a cultura a dimensão do processo social, é imprescindível que cada realidade cultural tenha sua lógica interna, sendo necessário relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos.
A contribuição no estudo das culturas advém da construção do fundamento histórico, seja como concepção ou como dimensão do processo social, sendo a cultura um produto coletivo da vida humana.
E a tradição, como se aplica nesse contexto? Ora, a falsa idéia que se tem, é que a tradição é tudo aquilo que é velho e/ou antigo, mas esse é um conceito falso, vez que é aquilo que está sendo entregue ou transmitido, ou seja, a herança cultural, passada de uma geração pra outra, as crenças e técnicas.
A cultura se divide em dois grupos distintos: a cultura de massa e cultura tradicional. A cultura de massa é aquela, onde as instituições dominantes têm de prover, e até mesmo criar as necessidades de multidões e de seus participantes anônimos, da mesma forma que desenvolvem mecanismos eficazes para controlar essas massas humanas, já a cultura tradicional, é tida como aquela que temos a necessidade de conhecê-la profundamente, dando-a a importância devida, até porque, representa a sabedoria de um povo, a sabedoria vulgar, ou a pedagogia da experiência, sendo regional e universal ao mesmo tempo.
Na cultura popular reside a maior fonte de sabedoria do homem, do povo, é através dela, que iremos nortear e encontrar os fatos folclóricos ou manifestações folclóricas.
O fato folclórico, por sua vez, compreende as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservados pela tradição popular e pela imitação, dedicado à renovação e conservação do patrimônio histórico científico humano ou afixação de uma orientação religiosa ou filosófica. Sendo caracterizado face aos aspectos tradicional, funcional, vulgar ou popular, espontâneo, anônimo e oral, bem como a sua aceitação coletiva.
São os diversos agrupamentos das espécies folclóricas, tendo em vista o seu futuro aproveitamento nas escolas, tais como: a literatura oral e linguagem popular; música folclórica; festas populares; recreação: arte, artesanato e técnicas populares; medicina popular; religiões, crendices e superstições; usos e costumes e alimentação.
Porque citei Pirapora? Como um amante e estudioso da história local, e profundo conhecedor das raízes culturais do Alto Médio São Francisco, posso reafirmar a importância da cultura popular num contexto sociocultural e humano da nossa gente.
Danças como o “Carneiro”, “Gamba”, “Lundu”, “Marujada”, e manifestações de louvor, como as “Folias de Reis” e “São Gonçalo”, além das lendas, mitos, contos, fábulas, parlendas, ciranda e causos, e claro o nosso artesanato em madeira, com destaque para as “carrancas”, dentre outras peças de renomado valor, representam a singularidade da nossa tradição, que vem sendo cultivada pelos ribeirinhos como uma rica demonstração da nossa potencialidade.
Marco oliveira
Os primeiros tempos
Antropologia é a ciência que estuda o homem e as implicações e características de sua evolução física (Antropologia biológica), social (Antropologia Social), ou cultural (Antropologia Cultural).
A palavra Antropologia deriva das palavras gregas antropos (humano, ou homem) + logos (pensamento ou razão).
Esta é uma ciência tardia que surgiu, ou se constituiu como disciplina científica, em meados do século XIX a partir das descobertas de Darwin e sua teoria evolucionista quando se concentrava na elaboração de teorias sobre a evolução do homem, sua sociedade e cultura. O homem não era mais fruto da criação Divina, então os cientistas começaram a procurar pela sua origem: o chamado “elo perdido”, que ligaria o homem moderno a seus ancestrais hominídeos. Com o tempo os estudos sobre o homem ganhou forma, os cientistas começaram a se interessar pelos grupos humanos primitivos e seus costumes, cultura e características, passando a entender o homem não mais como uma criação de Deus, mas da natureza.
A Antropologia Biológica, ou Física, é tida como uma ciência natural e se ocupa da análise de material colhido em escavações ou sítios arqueológicos, estando por isso profundamente relacionada com a Arqueologia e a Anatomia. Este ramo da Antropologia se ocupa também da observação do comportamento dos macacos e símios e das diferenças aparentes entre os seres humanos (epidérmica, pele, cor dos olhos, estatura, etc.).
Já a Antropologia Social é uma ciência social (tal qual a sociologia e a psicologia) que estuda as características culturais dos povos (“cultura” é tida aqui como a manifestação dos hábitos, rotinas ou costumes de um povo) e a evolução de seus costumes, crenças, religiões, relacionamento familiar, manifestações artísticas, etc. O que acaba englobando áreas como a lingüística, a própria arqueologia e a etnologia.
Os conhecimentos adquiridos por meio da Antropologia (Social, Cultural ou Biológica) podem ser aplicados por governos para facilitar o contato com povos específicos como os indígenas, quilombolas, através da chamada “Antropologia Aplicada”.
Outros termos associados à Antropologia são: Etnologia e Etnografia. Segundo Claude Lévi-Strauss (1908;...) ambas não constituem disciplinas diferentes da antropologia, apenas concepções ou níveis diferentes do mesmo tipo de estudo e, por isso, não deveriam nunca estar dissociadas. Ainda segundo Lévi-Strauss, a Etnografia seria o correspondente aos primeiros estágios da pesquisa, englobando o trabalho de campo e a observação; a Etnologia seria um nível acima, mais aprofundado, onde são feitas conclusões mais extensas que não seriam possíveis no primeiro momento (síntese), constituindo-se, pois, a Etnografia o passo preliminar à Etnologia. E, por fim, a Antropologia, seria o segundo e último passo da síntese, onde são abrangidas as conclusões da Etnografia e Etnologia.
